O Caso de Tony Nicklinson
Aos 24 anos (só após 24 voltas em torno do sol) descobri que finalmente estou me transformando em uma pessoa "saudável"... ao menos em termos Camusianos!
Para Camus (Albert para os íntimos), todas as pessoas saúdaveis já experimentaram o "Absurdo" do cotidiano, da vida.
Eu, por estes dias, iniciei a leitura do Mito de Sísifo, de autoria do senhor Albert. E enquanto lia, fui sentindo um aperto grande no coração... sentimento este que nos percorre quando reconhecemos um alguém verdadeiramente empático (a) a nós. Alguém que conhece (e não só isso), compreende e sabe perfeitamente bem o tipo de sentimento que te transporta à Solidão. Sentimo-nos como solitários acompanhados. Mas ainda assim, solitários.
E chega aquela dorzinha fina atravessando o estômago, junto ao relato/narrativa completa do que te perpassa.
Saudável aos 24...
Isso me levou a imaginar se demorei muito a chegar até aqui, ou se a saúde me chegou cedo.
Isso pq recentemente conheci alguém que tem este sentimento desde muito cedo... bem mais cedo do que eu, agora... serei eu uma retardatária à consciência da vida? Ou seremos os dois, uns amaldiçoados afoitos?
Engraçado como sempre exigimos uns de todos maior compreensão da realidade, maior visão de mundo, maior consciência de si mesmo e etc e tal... e onde isso nos leva?
Bem, em certos casos, ao sentimento de impotência frente à realidade que é dada a nós! Não escolhemos vir a ela e ainda por cima, se nos formos, ela continua aí, a quem puder e souber apreciá-la.
Mas então, qual a diferença??
Se não podemos escolher chegar até aqui, podemos ao menos escolher quando sair?
Pelo que tenho acompanhado nos noticiários atuais, nós estamos mesmo é APRISIONADOS a esta realidade, a este mundo...
Até quem já chegou ao seu limiar, quem já esgotou seu "fogo vital", quem é dono de sua existência, ainda necessita "pedir","assumir" não querer mais possuí-la! E até a estas pessoas está sendo negado o DIREITO de morrer.
"Com os avanços médicos no século 21, sua expectativa de vida deve ser de 20 anos ou mais. E ele não quer viver isso", afirmou o advogado do britânico, Paul Bowen.
Veja bem, ninguém o está obrigando. É um desejo. É uma premissa de Direito.
Se a vida é tratada como o "bem mais valioso" de um indivíduo, quem tira-lhe o direito de abrir mão dela é o quê?
É um torturador? É um carcereiro?
Isso é natural?
Por que o sacrifício de animais em situação de extrema dor, por exemplo, é permitido, para que ele tenha uma morte "digna", e o mesmo direito não é estendido a nós?
Será que deve-se permanecer numa subvida, muitas vezes até inválidados ou em estado vegetativo, até que o nosso corpo cumpra o destino da óbvia degradação? Aí sim, estamos permitidos a "ir em paz"?
Até lá, precisamos ficar de mãos atadas e "permanecer infelizes" até que a morte nos leve?
Que mundo é esse em que toda forma de vida não é respeitada? Tanto que, por sermos "humanos" somos AFRONTOSAMENTE desrespeitados até quando o assunto é relativo somente a nós, indivíduos, e a ninguém mais?
Eu quero poder ter minha decisão respeitada num caso assim. Eu quero poder ter a certeza de que minha família não será jogada num esgotamento psicológico e indecisões desgastantes sobre minha morte.
Isso é RESPEITO e SOLIDARIEDADE.
Se eu posso escolher doar meus órgãos em morte, qual o sentido de não poder resolver (quando se tem a oportunidade), que já está na hora para isso?
O problema é a aleatoriedade? Quem faria uma escolha dessas aleatoriamente? Eu não vi rastros de aleatoriedade neste caso e em tantos outros que são de meu conhecimento.
Eu não cheguei neste ponto, e muito provavelmente nunca cheguarei. Eu não acredito ter forças para escolher morrer, se eu tiver a oportunidade de ficar mais um pouquinho por aqui... mas entendo o sentimento que leva alguém a escolher o contrário. E defendo que este alguém tome para si a liberdade que JÁ É sua, de ser dono de sua própria vida e de sua própria morte.
Eu não acredito em nenhum deus e sei que todo mundo morre. Não espero que tenham anjos ou uma comissão inteira me esperando nesta hora. Mas eu, neste caso, não deveria ter mais medo do "grande finale" do que um(a) religioso (a), que acredita na vida eterna com seu criador após a morte corporal e que haverá um anjo para lhe guiar??
Do que estas pessoas têm medo então?? Considerando que os religiosos são os maiores críticos da Eutanásia?
Bem... Camus não aceitava a fuga do Absurdo, no ato de romper com a vida. Para ele, o Absurdo deveria ser vivido, lidado... Mas cada um não é dono de sua verdade?!
Segmentos de pensamentos... contruindo. Cosntruindo!
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