Pátria amada, Brasil
Aqui marco o início desse investigar, do olhar sobre a alma, dessa busca pelo sentir norteador e salva(dor).
Minha história começa aos 30 anos de idade.
30 anos vividos à base de vários "cai e levanta", várias indagações sem respostas, grande desconexão (pessoal, corporal, sexual, local ou espiritual) - apesar de sempre me encantar com o fenômeno da fé - aquela real, que faz manifestar o Espírito lá do fundo do coração, transpassando o corpo para se manifestar em todos os lugares por onde a pessoa caminha - uma coleção de feridas emocionais e de crenças sobre manter uma máscara de super-mulher. Portanto, carregando grandes incoerencias internas e todas as suas implicações, mas também vivendo em muita alegria, bondade, amorosidade e integridade (até onde foi possível) no peito.
O resultado desses ingredientes todos foi chegar aos 30 anos sem amadurecimento emocional: corpo de 30, coração e mente às vezes de 15, às vezes de 5 anos... sem reconhecimento corporal algum: nunca havia tido um momento de intimidade comigo mesmo, no sentido de pelo menos identificar os alertas de um corpo exausto, exigindo recarrega... sempre forçando meu limite pessoal à milésima potência em nome das "responsabilidades" e "obrigações". O que salvou essa alma aqui até seus 30 anos foi o desenvolvimento mental/intelectual/racional que, este sim, foi exercitado amplamente. Exaustivamente, porém prazerosa e naturalmente.
Aos meus 30 anos, mãe de dois, quinto, sexto ou sétimo relacionamento já em vias de acabar, morando só, já fora da casa de meus pais... me vi pensando em sair do Brasil. Uma ideia que chegou aleatoriamente mas que acabou chamando a atenção.
Quando vi, a mente já estava elaborando todo o passo-a-passo para enxergar o caminho a ser feito até a sua concretização e o pensamento aleatório virou um impulso forte dentro de mim. O nascimento dessa semente aqui dentro adveio de um cansaço e exaustão enorme a respeito de como a política brasileira ia de mal a pior... Presidenta Dilma acabava de ser impeachemada e por todo lado se viam memes em chacota à despedida do brevíssimo mandato da primeira mulher a ter assumido a cadeira da presidência do Brasil.
Memes relacionados ao seu nível intelectual, à sua aparência, à sua história de vida e até mesmo à sua sexualidade. Não eram poucos inclusive, os memes machistas escrachados que demonstravam a mentalidade predominante brasileira, nação que gira em torno do ser-homem-hetéro padrão-perdido na sua frágil e afrontosa masculinidade.
Nesse estágio socio-político minha consciência materna bateu tão forte que minhas reflexões passaram a aprofundar no sentido de se esse era lugar onde eu gostaria de manter meus filhos. Se era nesse lugar e nessa construção social que eu gostaria de deixá-los crescer e serem influenciados. Meu coração gritou bem alto um NÃO e assim eu fui atrás de fugir dessa realidade que na minha impressão, se encaminhava a um estado de caos total.
Graças ao suporte e apoio feliz e concordantes de meus pais, as pendências pré-fuga foram riscadas no papel e lá fui eu empreender essa nova meta de vida em terras canadenses. Lugar escolhido por mim, onde me encontrava perfeitamente ajustada às intenções políticas, sociais e morais do povo. Fui com o coração cheio de alegria pela possibilidade aberta à frente.
Então lá cheguei eu e nossa! Tantos encantos ali vivi. Muitos! Uma vida e rotina muito diferentes, pessoas, hábitos, lugares, paisagens, animais, clima (neve!!!), amores. Pensando bem agora, foi mágico! Uma passagem na vida que trouxe grandes aprendizados, do mundo lá fora... um exercício filosófico de distanciamento objetivo (risadas).
Lá também tive a chance de conhecer um lado meu que eu nem imaginava que existia... a tal da mediunidade... essa sensibilidade que nos permite conhecer um pouco do mundo invisível. Terrores noturnos eu já tinha experienciado em outros momentos na minha vida. Foram momentos de grande estresse e assim os médicos limitaram os episódios. 2 ao total pelo que eu lembre.
Porém em terras canadenses, o terror noturno que tive foi muito mais realista, mesmo pq não estava em momento pré-sono. Esta bem acordada. Mas paralisada. E atormentada. Vultos e vultos dentro do quarto, eu sozinha, deitada, tentando enxergar o que era aquilo, mas depois desisti e só relaxei. Pensei comigo mesma "devo estar sonhando, é só mais um terror noturno" e relaxei o corpo e em 20/30 minutos aquilo tudo passou.
Depois, ao passa por uma casa a caminho do Colégio, senti arrepios, uma angustia enorme no peito e muita vontade de chorar. Toda santa vez. Mesma rua. Mesma casa. Percebi depois da terceira vez esse padrão, e só assim pude identificar também que era somente eu que sentia, amigos, companheiro e ninguém mais parecia sentir.
E os vultos acompanharam. Agora ao redor de pessoas.
E uma sensação de estar sendo acompanhada e vigiada. Principalmente ao passar pelo cemitério.
Eram momentos que minha racionalidade não sabia como integrar na minha vida. Não sabia como explicar, então vamos ignorar. E assim, todas essas passagens da minha vida ali ficaram de escanteio. Quase esquecidas.
Enquanto lá estive, muitas dores, diariamente, noite pós noite... enxaqueca voltou com força. Saudades, saudades que não cabiam mais no peito.
Passado 6 meses, voltei. Não aguentei mais, nem me deixaram aguentar.
Voltei e voltar não foi triste ou melancólico como imaginava que seria.
Na verdade, voltar me trouxe uma sensação diferente... uma leve alegria, nostálgica, como uma volta pra casa dos pais. Onde você sabe que terá colo lhe esperando sempre que precisar, família, amigos, calor humano. Esse era o Brasil que eu conhecia, pelo menos. O Brasil amapaense. Onde o povo sente prazer em receber, tomar um café e prosear. Adora abraçar, rir alto e ser alegre, independente da vida.
Então voltei e não imaginei que seria tão gostoso, estar de volta na minha terra, de volta ao seio familiar, de volta aos braços dos amigos e do meu Amapá. Mas foi. E voltando, aquela sensibilidade toda pareceu ter sumido dentro da nova rotina. Não pensei mais nisso, nem mais houveram ocorrências, ao menos conscientes dessa sensibilidade extra.
Porém, a inquietação e desgosto quanto ao rumo politico do Brasil e também do meu estado ainda me faziam sentir que esse não era meu lugar. Que eu não me reconhecia em nada aqui. Então na permanência do sentimento de não pertencimento, fui fazer umas pequenas andanças no Brasil.
Conhecia mais alguns poucos estados e pessoas com as quais eu tinha me afinado. E foi nessas andanças que eu percebi o quanto existe de gente boa pelo nosso Brasil afora. O quanto existe de pessoas iluminadas, de bom coração de na labuta diária pelos direitos do povo e seu próprio. Pessoal antenado. Que luta pra ter aqui fora o que existe por dentro em seus corações. E pessoal que trabalha internamente pra que aqui fora, o mundo se reorganize tal qual é por dentro. E foi assim que eu dei de cara com a minha própria realidade. Meu castelo de vidro, meu mundo de sonhos, minhas regalias... minhas próprias limitações. Sabe aquela história de ser consciente dos seus privilégios? Foi pra esse movimento que eu nasci.
E decidi permanecer onde a energia me chamou. E fiquei. Florianópolis. Sul do Brasil. Terra indígena. Terra do povo M'bya, entre outros. M'bya significa Povo do Coração. E lá eu encontrei meus iguais. Lá eu me senti entre irmãos.
"Ó Brasil, terra adorada. Entre outras mil, és tu Brasil, ó Patria amada. Dos filhos deste solo és mãe gentil, Pátria amada, Brasil."
O Brasil do lado de cá não me representa. Esse Brasil que tenta a todo custo entrar no cenário econômico global como "potência econômica" a custo do povo passando fome, da má educação, da má alimentação, do desgaste físico e mental de seus trabalhadores. O Brasil intolerante, machista, misógino e individualista. TODO esse Brasil que constitui uma nação falsa despedaçada.
O Brasil indígena, terra encantada, de solo fértil, rios abundantes e frutos nas árvores. Terra do descanso, paz de espírito e deslumbre. De quem sabe a diferença do que é importante ou do que só envaidece o Espírito. De quem sabe compartilhar. Onde tudo é de todos, inclusive a comida. Mas os afetos, o bem querer e o amor também. E onde "meu" e "minha" só existem na língua Portuguesa dos colonizadores.
Brasil Pindorama. Das multi-nações e dos múltiplos povos. Um Brasil de raízes. Esse Brasil sim, é minha casa.
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.
Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.
Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer eu encontro lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar –sozinho, à noite–
Mais prazer eu encontro lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que disfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu'inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
De Primeiros cantos (1847)
Gonçalves Dias
Dança M'bya do Xondaro - Acampamento Brasília/2020

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